Entrevista com Carles Sala (Bulldog Studio): criatividade, inovação e o desafio da tela em branco no Make a Mark 2026

No universo do design de rótulos e embalagens, se destacar exige muito mais do que técnica: exige visão, audácia e uma filosofia de trabalho transparente e comprometida. Fundado em Barcelona em 2007, com o objetivo de fazer marcas crescerem através do design visual, o Bulldog Studio consolidou-se como um estúdio referência em branding e packaging, envolvendo-se em cada etapa do processo: desde o briefing inicial até a produção final na gráfica.

Sob a direção criativa de Carles Sala, a equipe de Barcelona foi selecionada para fazer parte da prestigiada iniciativa Make a Mark 2026. Esta plataforma global, impulsionada por referências da indústria como Estal, Avery Dennison e KURZ, reúne designers e especialistas técnicos para explorar os limites do design de embalagens sem restrições comerciais.

A proposta deles para a edição de 2026, batizada de CIRCLE, presta homenagem a um ritual muito mediterrâneo: a sobremesa (a conversa após a refeição) e o valor de compartilhar. Nesta entrevista exclusiva, Carles revela os desafios de enfrentar a “tela em branco”, as tendências globais no design de rótulos, o equilíbrio entre sustentabilidade e acabamentos premium e como a visão holística do design está moldando o futuro do mercado de embalagens

1. O Make a Mark reúne designers, marcas e especialistas técnicos para explorar novas possibilidades no design de embalagens. O que mais te motivou a se juntar ao projeto e o que essa experiência significou para o Bulldog Studio?

O Make a Mark (MaM) sempre foi para nós uma referência de criatividade aplicada ao mundo de packaging, uma janela para a visão muito pessoal de cada estúdio sobre como interpretar um conceito e traduzi-lo em um produto (seja ele mais ou menos produzido). Nesse sentido, fazer parte do “clube MaM” foi extremamente motivador: ficamos entusiasmados com a ideia de nos integrarmos a esse seleto grupo e contribuir com um grande projeto para a marca.

Em termos de experiência, foi um processo tão árduo quanto bonito. Nunca imaginamos o desafio que seria enfrentar a tela em branco. Todas as vivências em torno do MaM são avassaladoras: você se conecta com pessoas e empresas fundamentais e, no final, isso é o que realmente importa. 

2. O Bulldog Studio apresentou o CIRCLE no Make a Mark 2026. Como a ideia surgiu e qual história vocês queriam contar através do projeto? 

A ideia surgiu depois de pensar muito e rasgar centenas de rascunhos (literalmente, centenas!). Não queríamos um projeto temporário; buscávamos uma proposta que perdurasse no tempo e gerasse interação com a garrafa.

A história que contamos é muito nossa: nasce do respeito pela cultura da sobremesa, tão típica do Mediterrâneo; daquele ritual de compartilhar garrafas com a família ou amigos e conversar em torno de uma bebida. Em essência, é uma homenagem à própria garrafa, tornando o produto participante dessa cena cotidiana ao dar-lhe um segundo uso: não apenas como um recipiente, mas como algo que une as pessoas. 

3. Durante o desenvolvimento do CIRCLE, houve algum momento em que os materiais ou tecnologias disponíveis transformaram a ideia original? Que aprendizados essa experiência deixou? 

Houve momentos de tudo: repensar, reformular, corrigir, duvidar e conviver com a incerteza… Definitivamente, o que é típico de qualquer projeto, mas que, ao ter “carta branca”, é muito mais amplificado. Não queríamos cair no erro de adicionar elementos gratuitos, nem de criar uma proposta excêntrica, com excesso de elementos ou tecnicamente inviável.

Por isso, estivemos o tempo todo na corda bamba entre o grande consumo, a diversão e um toque premium. Alcançar esse equilíbrio entre caminhos quando se tem um leque infinito de possibilidades é realmente complicado e gera dúvidas constantes.

Enfrentar isso foi um aprendizado em si mesmo. Quem nos conhece sabe que projetamos há 20 anos: os medos sempre existem, mas com a experiência aprende-se a superá-los.

4. Em um contexto onde as marcas buscam se diferenciar cada vez mais, que papel o rótulo desempenha hoje na construção de uma experiência de marca? 

A experiência vital de uma marca é tudo. Sempre dizemos que não se trata da roupa que você veste para sair à rua, mas de como as pessoas te veem quando você está nela.

O rótulo — ou melhor, o gráfico que envolve uma embalagem — é vital para se explicar e comunicar, para filtrar quem você quer atrair e para se posicionar. Definitivamente, somos escravos da imagem. 


5. No Bulldog Studio, vocês trabalham com marcas de bebidas e produtos premium em diferentes mercados. Quais tendências observam atualmente no design de rótulos e embalagens? 

Depende muito do mercado e do país. Por exemplo, a Europa está mudando para bebidas com menor teor alcoólico, RTDs (ready-to-drink), bebidas funcionais e opções mais saudáveis. Isso faz com que os códigos de comunicação sejam mais cromáticos e suaves, aceitando tons que um destilado ou um vinho tradicional não aceitariam. Além disso, os formatos desse tipo de bebida convidam a investigar novas possibilidades e conceitos muito mais abertos.

Hoje, não basta vestir uma garrafa com um rótulo: temos que decorar a experiência de unboxing que o cliente terá, garantindo uma sedução visual tanto na prateleira quanto no momento do consumo. 

6. A sustentabilidade já não é um diferencial, mas uma expectativa do mercado. Como vocês acreditam que ela pode conviver com propostas de alto impacto visual e acabamentos premium, sem renunciar à criatividade? 

A sustentabilidade deixou de ser um discurso bonito para se tornar uma realidade tangível. As marcas não só querem ser sustentáveis, mas precisam explicar as suas ações, e o consumidor valoriza isso cada vez mais em sua decisão de compra.

Nesse sentido, não encontramos nenhum freio em nível criativo. Hoje em dia, dispomos de materiais, técnicas e acabamentos totalmente compatíveis com insumos reciclados: desde sistemas wash-off até papéis ultrabrancos 100% reciclados ou suportes especiais de grande beleza. Mais uma vez, contamos com um leque enorme de possibilidades. 

7. Olhando para os próximos anos, que inovações — seja em materiais, tecnologias de impressão ou recursos de design — vocês consideram que terão maior influência na evolução das embalagens? 

Nós apostamos claramente na disrupção do formato. Romper com o formato tradicional será o verdadeiro fator diferencial para impulsionar a compra. Por esta razão, no Bulldog apostamos fortemente no design industrial e incorporamos talentos à nossa equipe para oferecer este serviço de forma integral.

De fato, já existem no mercado projetos com garrafas e tampas personalizadas “feitas no Bulldog”. Da mesma forma, estamos construindo alianças estratégicas com fabricantes de vidro e decoradores para estarmos na vanguarda e oferecer aos nossos clientes o que há de mais moderno em design e decoração de embalagens. 

8. Após a experiência no Make a Mark, qual conselho vocês dariam às marcas e designers que buscam criar uma embalagem inovadora e com impacto duradouro? 

Às marcas, eu diria que se deixem aconselhar, que trabalhem com uma boa equipe de design e que confiem no seu critério. É fundamental que o parceiro escolhido esteja atualizado em inovação e os acompanhe ao longo de todo o processo como um verdadeiro companheiro de equipe.

E se eu tivesse que resumir a chave para conseguir uma embalagem inovadora e duradoura em uma frase: para mim, é equivalente ao vidro. Você quer que seu projeto perdure e sua marca transcenda? Invista em um molde de vidro e crie uma marca própria. Para colher, primeiro é preciso semear.

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